Sob pressão da indústria e conselhos de Alckmin, Lula adia retaliação aos EUA (Ciudad de México)

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A avaliação é que uma resposta tarifária imediata também poderia atingir empresas brasileiras dependentes de máquinas, componentes e insumos importados dos Estados Unidos. O cálculo político considera ainda o impacto que uma deterioração da atividade econômica poderia provocar na disputa presidencial. Segundo integrantes do Planalto, a preocupação é evitar que o aumento de custos, a perda de exportações ou o adiamento de investimentos fortaleçam a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, principal adversário do campo governista na corrida eleitoral.

A orientação mais cautelosa foi defendida pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin. Responsável pela interlocução com empresários e setores exportadores, ele tem sustentado que o caminho mais optimizado é ampliar o diálogo e buscar exceções para os produtos brasileiros, em vez de iniciar uma sequência de retaliações. A posição encontrou respaldo entre representantes da indústria.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) defendeu que o governo não utilize a Lei da Reciprocidade neste momento. Após reunião com Alckmin e integrantes da equipe econômica, o presidente-executivo da entidade, José Velloso, afirmou que o setor é contrário a uma reação imediata. “Eu acredito que o governo não fará retaliação, não haverá Lei da Reciprocidade, o que nós apoiamos. Nós somos contra a utilização”, disse Velloso.

Para o dirigente,



a sobretaxa imposta pelos Estados Unidos tem origem política e não seria solucionada por novas barreiras comerciais. “Nós entendemos que o tarifaço tem um cunho político por parte dos americanos e o que nós temos que fazer, com pragmatismo, é nos aproximar e continuar na mesa de negociação.” Velloso também defendeu uma atuação conjunta da diplomacia brasileira e do setor privado para reconstruir o diálogo com autoridades e empresários norte-americanos. “Não entendemos que reciprocidade ou retaliação vai resolver um problema político”, afirmou. A resistência da indústria de máquinas tem relação direta com o risco de aumento dos custos de produção. Parte das empresas brasileiras importa equipamentos, componentes e tecnologias dos Estados Unidos.

Uma elevação das tarifas sobre esses produtos poderia encarecer investimentos e afetar segmentos que já enfrentam juros elevados e desaceleração da atividade. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) adotou posição semelhante. Após participar de reunião com Alckmin e representantes dos ministérios do Desenvolvimento, da Fazenda e das Relações Exteriores, o presidente-executivo da entidade, Haroldo Ferreira, defendeu a continuidade das negociações e a adoção de medidas emergenciais para apoiar os exportadores. “A aplicação da tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos Estados Unidos e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas desde o fim da tarifa adicional de 40%, em fevereiro deste ano”, afirmou Ferreira.

Segundo o executivo, a decisão também produz efeitos sobre a própria economia norte-americana. “Trata-se de uma medida que penaliza não apenas os exportadores brasileiros, mas também importadores, marcas, varejistas e consumidores norte-americanos, dada a interdependência produtiva e comercial entre os dois países.” Os Estados Unidos estão entre os principais destinos do calçado brasileiro. A nova sobretaxa ameaça contratos em andamento e pode levar importadores a substituir fornecedores do Brasil por concorrentes instalados em mercados submetidos a tarifas menores. Como alternativa à retaliação, a Abicalçados propôs a ampliação temporária do Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras, o Reintegra. “Há previsão legal para ampliação da alíquota até 5%, o que contribuiria para a atenuação dos impactos sobre as empresas exportadoras nesse momento de dificuldades no mercado internacional”, declarou Ferreira.

O setor também reivindica linhas emergenciais de crédito, reforço das garantias às exportações e ações direcionadas às atividades mais expostas ao mercado norte-americano.



“A promessa é de medidas para auxílio emergencial aos setores. Porém, ficou claro que as iniciativas serão por segmento econômico, já que cada um tem a sua particularidade”, disse o presidente da Abicalçados após o encontro com o governo. A Lei da Reciprocidade Econômica permite ao Brasil suspender concessões comerciais, investimentos e direitos de propriedade intelectual em resposta a medidas unilaterais adotadas por outros países.

Sua aplicação, no entanto, depende de procedimentos técnicos e políticos que envolvem a identificação dos setores atingidos e a avaliação das possíveis consequências para a economia brasileira. No Planalto, a leitura é que o simples início desse processo funciona como instrumento de pressão, sem obrigar o governo a adotar imediatamente novas tarifas. O Executivo pretende usar a possibilidade de reciprocidade para reforçar as negociações, ao mesmo tempo que busca excluir produtos brasileiros da sobretaxa norte-americana.

Interlocutores ouvidos pelo BRAZIL ECONOMY afirmam que uma reação mais dura permanece sobre a mesa, mas dificilmente será colocada em prática antes da eleição presidencial. A prioridade é impedir que a disputa comercial contamine a atividade econômica, alimente a inflação ou se transforme em argumento eleitoral da oposição. Ao seguir a orientação de Alckmin e atender ao apelo de setores industriais, Lula tenta equilibrar o discurso de defesa da soberania nacional com a necessidade de preservar exportações, investimentos e empregos.

A estratégia adia o confronto, mas mantém a Lei da Reciprocidade como uma ameaça disponível caso as negociações com os Estados Unidos não avancem. Deixe um comentário O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com Comentário Nome E-mail Outras notícias Indiana ManageEngine afirma que só 14% das empresas têm maturidade para adotar IA Parceria entre RZ3 e Sunbelt amplia acesso de empresas brasileiras ao mercado de M&A; A tecnologia só transforma a saúde quando há médicos muito bem preparados Tensão diplomática com EUA e Argentina eleva preocupação do setor produtivo Leia Mais Lula desafia Trump na OMC e abre nova frente de tensão com os Estados Unidos Crise da direita abre espaço para uma agenda mais populista de Lula e preocupa mercado Dinheiro de Vorcaro aos Bolsonaro vira filme de terror para a direita e derruba mercado ASSINE NOSSA NEWSLETTER E FIQUE POR DENTRO DAS PRINCIPAIS NOTÍCIAS DO MERCADO Quer receber notícias pelo Whatsapp ou Telegram?

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